Direitos Humanos
O Michelangelo do Capibaribe - Fernando Ferro
A sensibilidade de um artista pode ser atestada quando sua obra recria a crueza da vida com poética, quando imprime aos hábitos simples do nosso povo seu traço estético e os imortaliza. A bela e comovente exposição Amor e solidariedade, que está no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, faz uma homenagem ao ilustre artista pernambucano Abelardo da Hora. O evento ocorre após 60 anos da primeira exposição individual desse mestre da arte pictórica e escultural de Pernambuco.
Abelardo da Hora nos convida a um passeio pelo universo criativo da pintura, da escultura, da cerâmica, do bico de pena. Esse Michelângelo nordestino, com suas figuras humanas, une a denúncia da exclusão social com suas belas e sensíveis mulheres, Vênus nordestinas, criação da cabeça e das mãos deste gênio da raça. Ao vermos os Meninos do Recife, criação do traço de Abelardo, figuras que ilustraram a grande obra de Josué de Castro – Geografia da fome – vemos o artista militante político comprometido com a luta social, combatendo e denunciando a injustiça e fazendo da arte a ferramenta da consciência social e de solidariedade.
Porém, a exposição não é apenas a crítica social, mas um retrato artístico da cultura popular do Recife. Abelardo deixa sua marca na força de expressão da arte do povo, nos passos do frevo, na corte do maracatu, na evolução dos caboclinhos ou na ginga mortal dos capoeiras. Entre as obras somos convidados ainda a relembrar os folguedos infantis: o peão, o papagaio, as cantigas de roda e o universo lúdico e criativo das crianças pobres, inventando e vivendo nas brincadeiras.
A mostra de Abelardo da Hora nos dá orgulho, como pernambucanos, ao expressar com a sensualidade de suas esculturas femininas ou seus garotos famélicos, o seu amor pela vida prazerosa e erótica e também solidária e comprometida.
Vida plena de prazer e de luta, expressão da arte mais elevada, que encanta e faz pensar, ao mostrar que o mundo pode e deve ser melhor. Viva Abelardo da Hora, Michelangelo da beira do Capibaribe!
(Artigo publicado no dia 24.07.2009 no Jornal do Commercio - Pernambuco)
NÃO À CRIMINALIZAÇÃO DO POVO XUKURU
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Paixão Nacional e Saúde Pública
Vendida na grande mídia como uma suposta paixão, cercada de forte aparato publicitário, a cerveja é elencada como unanimidade nacional. É o símbolo do happy hour, é a bebida que "agrega" e remete à felicidade instantânea. As propagandas veiculadas no rádio e na TV, normalmente ressaltam os prazeres que esta loura gelada empiricamente proporciona. Pesquisas indicam que o brasileiro é o quinto maior consumidor de cerveja no mundo.
O irônico nesta história é a forma cínica como tratamos as chamadas drogas lícitas e ilícitas. Numa somos tolerantes, submetidos aos interesses de mercado, desde as responsabilidades do ambiente familiar até interesses de mercado. Na outra exigimos o rigor, a repressão e temos o discurso claro dos seus malefícios à saúde e à sociedade. Não dá pra ser assim. Drogadicção é doença independente de seu lado legal ou ilegal. Precisamos ter políticas para combatê-las ou, no limite, estabelecer políticas de redução de danos, ou conviver com elas.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), alcoolismo é a terceira doença que mais mata no mundo. Pode provocar até 350 doenças físicas e psiquiátricas e torna dependentes um em cada dez usuários.
O II Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, promovido pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), em 2005, indica que nas 108 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes, 12,3% das pessoas com idades entre 12 e 65 anos são dependentes de bebidas alcoólicas.
Pensando em proteger nossa juventude e garantir mais saúde à nossa população o Governo Lula enviou para a Câmara Federal o projeto de lei n° 2733/08 que reduz de treze para meio grau Gay-Lussac - GL, o teor alcoólico a partir do qual, para todos os efeitos legais, uma bebida será considerada como alcoólica. Nesta perspectiva, bebidas de baixo teor, como a cerveja, terão restringidos os horários de publicidade. As mensagens de apelo, as sugestões de que o sucesso está relacionado a um copo de cerveja ou que a ingestão de álcool é um forte aliado na conquista amorosa ficam restritos à faixa de horário entre 21h e 6h.
O crescimento e a banalização do uso e do abuso das drogas são uma realidade mundial. É preocupante que os mercados utilizem a credibilidade da mídia para divulgar produtos que, envolvidos em embalagens, trazem no seu conteúdo danos sérios à saúde. Mais de 90% das internações hospitalares por dependência são em decorrência do alcoolismo.
A droga está presente em 70% dos laudos das mortes violentas. As pesquisas mundiais indicam que 12% da população são dependentes do álcool. O alcoolismo é uma doença social e é urgente minimizar seus sintomas.
No início do ano entrou em vigor a MP 415, que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais. A intenção é diminuir o número de acidentes nas estradas. A iniciativa tem méritos e precisa ser conjugada com ações preventivas, fiscalização e educação nas estradas. Cerca de 45% dos jovens entre 13 e 19 anos envolvidos em acidentes haviam ingerido bebida alcoólica.
Restringir o horário da publicidade de bebidas alcoólicas é, portanto, uma medida de saúde pública. É papel do parlamento garantir que a infância e a juventude brasileiras tenham perspectivas de crescimento efetivo, protegendo nossa população do uso indevido das drogas.



